LIÇÃO II - Como Trabalhar a Criatividade na Concepção de Modelos

"A vida é um movimento sem explicação, a compreensão disso, nos torna iguais..."Jon Talber
Introdução - Compreendendo o Processo Criativo
Introdução - Compreendendo o Processo Criativo
Antes de falarmos sobre este processo, precisamos entender um pouco como funciona nossa mente que tem por padrão operacional, ou seja, possui um motor que trabalha segundo o modeloanalógico. Por analógico, entenda-se: Nosso pensamento, ideias, enfim nossa mente, só funciona segundo o princípio da comparação, ou seja, só consegue criar alguma coisa derivada de algo que já viu antes.
Isso apesar de óbvio, de ser um fato simples, pode a princípio não ser evidente para muitas pessoas, mas explica o porquê da limitação que temos em criarmos algo novo, absolutamente inédito. É claro que não podemos fugir à regra, mas podemos nos adaptar a esse modelo e começar a criar coisas novas mesmo que sejam baseadas em modelos já existentes. Mas nosso objetivo aqui não é o estudo da mente, muito menos discutir sobre o porquê de nosso pensamento funcionar desse modo.
Na maioria das vezes, o autor de uma Atividade Recreativa não consegue criar o que tem em mente, ou porque fica limitado pelas suas habilidades, ou pela sua incapacidade temporária na consecução da tarefa idealizada. Assim, por não se sentir capaz de materializar a tarefa que tem apenas como ideia, este a descarta prontamente.
Isso é errado, pois se ele não é capaz de realizá-la, certamente outra pessoa com as habilidades requeridas, das quais ele se ressente, poderia fazê-lo. Nesse caso, seu papel seria apenas o de ter a ideia, e a execução, o processo de feitura, isto ficaria a cargo de outra pessoa com habilidade para desenvolvê-la e talvez aplicá-la. Afinal, o mais importante será sempre a ideia, pois a forma de como dar vida a uma ideia pode ficar a cargo de terceiros.
Isso daria ao criador de Atividades uma liberdade que ele poderia não ter antes por não considerar esse fato. Assim ele teria liberdade para criar coisas que iriam muito além daquelas que suas habilidades profissionais fossem capazes de realizar. Teria ele então o papel de apenas ter ideias, e outros as executariam. Desse modo, onde a imaginação não estaria mais limitada pelas habilidades do autor, muita coisa nova poderia de fato surgir.
As Regras Básicas para Criação de uma Atividade
A nosso ver apenas Duas condições básicas devem servir de orientação para o educador na hora de aplicar ou criar uma Atividade, são elas:
- Conhecer o valor didático da mesma, aquilo para que serve.
- Saber adaptá-las às necessidades e conveniências da turma de modo a manter todos interessados e sem perder o valor educacional, e também sem desviar-se do foco que é o educar divertindo.
- Como encontrar Atividades em Potencial no ambiente, na mesologia, isto é, como reconhecer no ambiente imediato, coisas que possam dar origem a Atividades cognitivas.
- Saber medir na hora o custo-benefício de uma ideia que poderá ser transformada em Atividade, isto é, valorizar as ideias que possam ser aplicadas com pouco ou nenhum custo, mas que tenham valor educativo, quer dizer, que sejam didaticamente úteis e financeiramente viáveis.
Conclusão
Usar a criatividade muitas vezes requer coragem, pois algumas Atividades que a princípio se mostrem pouco promissoras, podem esconder uma grande potencial instrucional. É preciso também considerar o valor educativo amplo de uma atividade recreativa com fins didáticos.
Isto significa dizer que, as melhores Atividades são aquelas que vão além da cognição vulgar, são aquelas que além de trabalhar alguma habilidade e qualificação também atuam no aspecto psicológico do indivíduo. Um exemplo disso são os exercícios didáticos que ensinam valores que extrapolam o lado material, tais como, a reflexão, a ponderação, o equilíbrio emocional, aspectos éticos da conduta, etc.
Atribuindo um Real valor didático a uma Atividade
Por Lastro Psicológico de Valor, queremos dizer; Ensinar com as Atividades, de forma divertida e cativante, e nessas brincadeiras, introduzir sutilmente elementos que trabalhem também o desenvolvimento psicológico e ético do indivíduo. Estes podem ser valores morais, comportamentais ou capacitação para que o aluno se torne mais questionador, curioso, um solucionador de problemas na vida adulta.
Não é fácil fazer tais coisas, mas, com um pouco de conhecimento da psicologia infantil, podemos fazê-lo com relativo sucesso.
Vejamos um exemplo de uma Atividade Recreativa, onde o preceptor, baseado no conhecimento que tem do comportamental infantil, poderia lhes ensinar de modo que não percebessem, por exemplo, O Aprender a Solucionar Problemas.
Esta simples atividade ilustra este princípio de forma clara. A faixa etária é importante, mas, não uma regra inflexível, uma vez que algumas crianças de um mesmo grupo etário podem ter uma percepção maior, mais desenvolvida, capacitando-as à solução de problemas de uma forma mais criativa que outras. Estas são as exceções, e assim devem ser tratadas como tal. Não podemos ignorar as exceções, estas devem ser tratadas à parte. Se for Déficit de Aprendizado, podemos incluir o indivíduo em grupos normais; mas sendo o caso de criança superdotada, não podemos fazer isso, pois irá limitar de forma irremediável seu progresso.
Elas são mais ágeis no pensar e pouco pacientes com aqueles de pensamento normal ou lento, e fazê-las pensar de forma normal ou lenta é prejudicial e inibe seu desenvolvimento. Colocá-las em grupos semelhantes, evita que ela desenvolva o sentimento de superioridade, que é algo natural quando crianças com esses atributos se inserem em grupos de pensamento lento. Desse modo, o deslocamento para grupos de uma mesma natureza, torna-a uma pessoa normal, pois não poderá sentir-se melhor, superior aos outros, já que se equivalem[1].
Uma informação importante é sobre motivação. Todos precisam de motivação para realizar tarefas. Por motivação entenda-se recompensa pelo dever cumprido. Assim, as pessoas só agem se estiverem motivadas, por isso, logo se tornam facilmente frustradas, pois há de chegar uma hora onde as recompensas não mais motivarão ninguém. Há uma saturação, sem contar que há também o sentimento de que a recompensa pode não ocorrer, o que vai gerar ansiedade e angústia.
Assim, nunca é demais lembrar, que as melhores atividades são aquelas que não incitam a competição entre os indivíduos, e sim aquelas que despertam apenas o sentimento de superação pessoal. Estas dão ao indivíduo a força de que precisam para superar seus próprios obstáculos e limites. Terão assim uma maior motivação, uma vez que sempre estarão querendo provar para si que são capazes de realizar algo, e não apenas como exibição para os outros, como ocorre com o modelo tradicional.
Sabendo o preceptor que a natureza original da criança é o explorar por tentativa e erro; é o tentar fazer uma coisa, mesmo errando, até que consiga acertar, Coloquemos sobre uma mesa, três caixas de tamanhos diferentes, conforme a ilustração abaixo:
Por dentro da Contextualização da Questão:
Suponha a seguinte condição inicial: Preciso carregar de uma só vez as três caixas. Sei, no entanto, que para carregar qualquer das caixas, irei precisar usar simultaneamente as duas mãos. Assim, como fazer para carregar as três ao mesmo tempo, de uma só vez?
Claro que alguns conseguirão resolver o problema, outros não. Para aqueles que não conseguirem, dê a seguinte informação adicional; as caixas menores cabem dentro das maiores. Esta informação lhes dirá de forma indireta que eles podem refletir antes de praticarem uma ação, criando assim o primeiro sentimento de que, dado um problema, independente de opiniões, a análise do mesmo é necessária.
Numa atividade assim desenvolve-se o Raciocínio Lógico e a dedução que determina a capacidade de solucionar problemas de natureza concreta. Trabalha-se também noções de espaço, etc. Outras qualificações importantes que podem ser desenvolvidas além desta são: Raciocínio Emocional, Coordenação Motora e Atenção. Existem outras tantas, mas aquelas que inicialmente julgamos mais importantes são estas. Estes aspectos, que podem ser considerados qualidades da natureza de cada ser, podem variar de intensidade entre os seres humanos.
Num futuro trabalho sobre A Educação Holística, iremos falar em detalhes sobre estes aspectos. Vamo falar brevemente sobre tais Qualidades ou Qualificações.
O desenvolver do Raciocínio Emocional cria no individuo o equilíbrio das emoções, a capacidade psicológica necessária para se ter uma postura centrada diante de problemas de natureza não concreta. São os problemas psicológicos, os sentimentos nos relacionamentos, etc. São as depressões, as angústias, as ansiedades, a falta de confiança, a falta de motivação, os conflitos existenciais e outros.
O desenvolver da Coordenação Motora cria toda estrutura que precisa o indivíduo para entender o mundo concreto à sua volta. Aprende sobre as formas e limites, espaço, natureza e movimento de todas as coisas que fazem parte do nosso mundo material. Entender as coisas faculta-o usá-las de forma consciente, conhecendo o papel de cada uma delas em sua vida e trabalho. Isso o capacita e lhe dá lastro para a solução de problemas e autoconfiança por sentir-se familiarizado com o ambiente.
O desenvolver da Atenção parece-nos ser o mais importante de todos, pois esta capacita qualquer indivíduo a perceber melhor seu mundo, a aprender de forma construtiva com as experiências vividas, a desenvolver a serenidade, uma qualidade necessária para o fluir pleno e produtivo de qualquer aprendizado ou forma de cognição. Uma correta Atenção permite ao indivíduo um correto agir, com disciplina e organização, e cria todas as memórias que poderá usar como bagagem, repertório de informações, para futuras aplicações.
Como adaptar uma Atividade já existente para novas Aplicações:
O tradicional Jogo-da-Velha, por exemplo, pode inicialmente ser aplicado para desenvolver a Atenção e o Raciocínio Lógico, mas se refletirmos um pouco podemos lhe dar novas funções de grande valor didático, sem tirarmos, no entanto, seu propósito inicial.
Podemos por exemplo, usar o tabuleiro do jogo, conforme a figura 1 abaixo; onde colocamos nove círculos coloridos. A tarefa do aluno seria então embaralhar os círculos, de modo que na mesma linha, não se repetissem cores iguais. Uma das possíveis soluções é mostrada na figura 2. Podemos criar outras situações, com outros objetos ao invés dos círculos. Podem ser formas geométricas, ou objetos, e assim poderíamos trabalhar também o conhecimento dessas formas, etc.
Existem ilimitadas formas de adaptações que podemos fazer com todas as outras Atividades que já existem. Desse modo, podemos renovar todas as atividades já tradicionais, deixando-as sempre novas, atualizadas, adaptadas às novas realidades e necessidades, direcionando-as para projetos específicos. Nesse caso, a imaginação do preceptor será o limite.
Introdução às Experiências Chave:
São representações, concepções, que descrevem o desenvolvimento social, cognitivo e físico das crianças na sua primeira fase de formação, que ocorre entre dois e meio até os cinco anos de idade. Mas, estas concepções, podem ser livremente adaptadas para todas as faixas etárias, e mesmo servindo como modelo para avaliação de profissionais adultos já qualificados.
Cada constatação, elas são em número de quatro, focaliza uma experiência que é essencial para o desenvolvimento das capacidades que surgem nessa idade. No seu conjunto, as experiências-chave proporcionam um quadro detalhado das atividades típicas das crianças dessa faixa etária e dos tipos de conhecimentos dos quais necessitam. São elas utilizadas pelos educadores como guias para observarem, compreenderem e apoiarem os interesses e capacidades das crianças nesse período crítico de sua formação.
Estão organizadas em quatro grupos:
- Socialização;
- Representação (uso da memória adquirida) e Linguagem;
- Classificação e noções de Sequência, Números, Espaço e Tempo;
- Desenvolvimento Físico.
Socialização: Aqui a criança desenvolve o sentido da iniciativa e confiança em si mesma e nos outros. As crianças têm um intenso desejo de se relacionarem harmoniosamente, de compartilharem suas experiências com as demais. Por isso é comum frases do tipo: “Eu sei como é que se faz isso”, “Eu te mostro como fazer isso”, “Aquele menino está triste, acho que está doente”. É na criança, o sentimento de compartilhar seu mundo de forma gratuita com os outros, sem competição, seu primeiro despertar de inteligência. Este tipo de inteligência, que não é aquisição de conhecimentos, é algo intuitivo, algo que com o tempo é substituído pelo desejo de dominação e poder, de competição, uma forma corrompida de pensamento, uma condição que o meio social institui, incentiva, determina como norma de vida.
Linguagem e Representação: Ela é encorajada a falar sobre suas atividades e realizações, sobre o que sente e sobre o que quer, com o uso das próprias palavras. Ao expressar através de palavras suas experiências e sentimentos, elas acabam por se tornarem mais conscientes das descobertas feitas e mais capacitadas a fazerem uso desse conhecimento no futuro. As experiências-chave de Representação, como as de Linguagem, ajudam a criança a lembrar, reviver e aplicar aquilo que sabem. Assim, elas podem recordar e interpretar suas experiências através de jogos dramáticos, de desenhos, de pinturas, construindo coisas que conhecem com blocos de madeira, barro, etc.
Classificação e Noções de Sequência, números, espaço e tempo: As crianças têm a oportunidade de utilizarem e compreenderem as relações entre as coisas do seu mundo: quais as semelhanças e as diferenças entre objetos; onde se localizam as coisas no espaço e no tempo; como podem a partir de uma coisa dar origem à outra, etc. É assim, descobrindo e compreendendo as coisas que fazem parte do seu mundo, que as crianças adquirem a sensação de controle sobre si e sobre seu meio.
Desenvolvimento Físico: É o desenvolver da capacidade de coordenação, consciência do corpo e o sentido de prazer físico, condições que apóiam a socialização e o processo de aprendizagem das outras coisas. Assim, em vez de objetivos impostos pelos adultos às crianças, pelo uso das experiências-chave, poder-se-á identificar os tipos de atividades para as quais as crianças se sintam naturalmente atraídas. Isso torna mais fácil aos adultos apoiarem os interesses das crianças e ajudarem a torná-las conscientes do que fazem. Ao se tornarem conscientes dos seus interesses, pontos fortes e capacidades, as crianças ficam mais aptas a utilizarem seus conhecimentos para fazerem novas descobertas, isso ajuda de forma decisiva no seu desenvolvimento cognitivo.
Eis então alguns tópicos que podem ser cobertos com as Experiências-chave, do grupo Socialização, o único que trataremos aqui:
- Fazer e exprimir escolhas, planos e decisões.
- Reconhecer e resolver problemas
- Compreender e saber exprimir sentimentos
- Saber lidar com as próprias necessidades
- Compreender rotinas e expectativas relacionadas com eventos futuros
- Ter sensibilidade para os sentimentos, interesses, necessidades e história pessoal dos outros.
- Saber relacionar-se com outras crianças e adultos
- Saber trabalhar em equipe e praticar jogos coletivos sem sentimento de disputa
- Desenvolver formas e processos para lidar com conflitos entre pessoas
- Entender que o mundo é de todos e não exclusivamente de uma pessoa só.
- Aprender a compartilhar das descobertas úteis e rejeitar as inúteis.
- Aprender que o esclarecimento, o aprendizado de valor só pode existir a partir do Princípio de Descrença, da dúvida, do questionamento.
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